Volta ao mundo em bicicleta por um português

  • 14-11-2018
  •  
    58.900km pedalados, 49 países visitados em 4 anos e 3 meses
    de viagem, são estes alguns números do Sr. Hernâni Cardoso na sua tentativa de volta ao mundo em bicicleta.

    Muito provavelmente, alguns de vocês já o conhecerão, assim como a sua história, mas não a podíamos deixar de passar para aqueles que ainda não conhecem o Sr. Hernâni, que tentou dar a volta ao mundo em bicicleta.

    Aos 53 anos decidiu vender todos os seus pertences e empreender uma longa e arrojada aventura atrás de um sonho de criança, partir de bicicleta pelo mundo fora. Deixamos-te a história e fotos dessa aventura fantástica.

    Por exemplo, verás que quando vais dar uma volta de bicicleta na tua zona e não podes passar por uma estrada em obras, vais por outra estrada, no caso do Sr. Hernâni, quando não podia ir para o país planeado, tinha que ir para outro país.

    4 anos consecutivos, maioritariamente do tempo sozinho e a fazer o
    planeamento diário de vistos, alojamento, alimentação, saúde, descanso,
    não foi tarefa fácil certamente.

    O Início

    Partiu dos Paços dos Duques de Bragança, em Guimarães a 20 de Maio de
    2014 seguindo para Marrocos mas passando pelos Açores, Madeira e
    Canárias, territórios descobertos pelos portugueses durante a Era dos
    Descobrimentos. Este era o plano inicial para a volta ao mundo em bicicleta.

    As primeiras dificuldades

    De Marrocos rumou á Tunísia via França, pois as fronteiras terrestres entre Marrocos e a Argélia ainda e encontram fechadas, e já na Tunísia tencionava rumar ao Egipto, via Líbia.

    A situação naquele país africano era de tal modo perigosa que a polícia tunisina nem o deixou sair da capital, Tunes, pelo que teve de rumar a Itália e daí chegar ao Kosovo onde visitaria o destacamento português do “BIPAR”.

    Nesta zona, passou por Vaticano, San Marino, Bósnia, Croácia, Montenegro
    e Albânia, sempre a pedalar e conhecer diferentes culturas e paisagens.

    Após uma semana com os militares portugueses (Kosovo), rumou para a Bulgária onde teria de se encontrar com um familiar para receber algum equipamento, mas a caminho da Bulgária passou pela Macedónia.

    O Natal de 2014 foi passado em Belém, na Igreja da Natividade (Palestina) depois de ter passado pela Roménia, Ucrânia, Grécia e Turquia, antes de
    voar para Israel.

    Mais uma vez os problemas políticos o impediram de atravessar a fronteira entre Israel e o Egipto pelo que desta vez o voo de Tel Aviv para o Cairo, via Atenas, foi a opção encontrada.

    Pedalar à noite entre o aeroporto internacional do Cairo e a Praça Tahrir valeu-lhe 3 dias de disfunção nervosa, tal o perigo que enfrentou nas avenidas escuras e esburacadas onde carros circulavam a velocidades loucas, sem luzes. Mas a volta ao mundo em bicicleta não saía da mente.

    De seguida o destino traçado era o Irão, onde a entrada se previa amedrontadora, tal o índice de noticias nefastas que os órgãos de comunicação ocidental debitavam sobre esse país shiita.

    Para lá chegar voou do Cairo para o Dubai, de onde daí apanhou o ferry nocturno
    que liga Sharjah (cidade nos Emirados Árabes Unidos) a Bandar Abbas, cidade no Irão onde se situa o maior porto mercantil do sul-iraniano e quase no Estreito de Hormuz.

    As expectativas negativas criadas sobre o Irão foram completamente desfeitas.
    Hernâni Cardoso encontrou um povo afável, autoridades simpáticas e faz
    aí inúmeros amigos com os quais passou a maioria dos 30 dias viajando
    e acampando nas ilhas de Qeshm e Hormuz, onde ainda se mantém imponente a enorme fortaleza construída pelos portugueses.

    Voltaria mais tarde ao Irão depois de uma passagem pelo Sultanato de
    Omã e do Bahraim.

    Segundo ano de viagem

    Ao fim do primeiro ano de viagem rumou para a Ásia, entrando pelo Sri
    Lanka e Maldivas (onde se entregou às delicias das suas praias, visitou a recentemente aberta zona de guerra dos Tigres do Tamil Nadu.

    Entrou depois, na imensa Índia, aterrando em Trivandrum, no estado de Kerala, (sul da India). Neste país planeava pedalar durante 6 meses, nesta volta ao mundo em bicicleta.

    Visitou as cidades outrora dominadas pelos portugueses: Cochim (Kochi),
    Khozikode (Calicute) e toda a costa do Malabar até Goa, a pérola
    portuguesa da Índia, invadida pela União Indiana em Dezembro de 1961.

    Neste país Apaixonou-se pelo “modus vivendi”, pela arquitectura colonial, pela  gastronomia, as gentes goesas e aí decidiu que Goa seria doravante o seu “pouso”, a sua casa mãe.

    A Índia tornou-se no maior desafio psicológico e físico da viagem, com uma
    constante diária em se manter “vivo” no meio do caos do trânsito onde era extremamente difícil controlar uma bicicleta carregada no meio do transito caótico.

    Carros, motos e pessoas, ninguém dá prioridade a ninguém, a regra é: “o meu é maior que o teu, logo eu passo primeiro.”

    Por incrível que pareça o único acidente aconteceu no deserto do Thar no Rajastão. Para trás tinham ficado Mumbai, Damão e Diu.

    Acidente e lesão

    Num dia pontuado por uma série de inúmeros furos, exausto foi derrubado por um camião de uma coluna militar do exército indiano.

    A volta ao mundo em bicicleta poderia acabar aqui.

    Quando recuperou os sentidos não se podia mover e alguns oficiais do exército indiano, juntamente com o Richard, um americano que tinha encontrado primeiramente no Egipto e depois em Goa, discutiam “sobre o acidente”. A bicicleta ficou “feita num oito”.

    Esta era a bicicleta que pertencia a um chinês que em 2012 tinha feito o percurso China Portugal e que tinha sido roubada em Sines.

    Na altura, Hernani Cardoso ajudou o Eric Feng, a completar a sua viagem até ao Cabo da Roca, e muitos meses mais tarde quando informado pela GNR que a bicicleta tinha aparecido decidiu pedalá-la até à China para a entregar ao seu dono.

    A solução encontrada pelos oficiais indianos foi levarem-no para o
    Hospital mais próximo, a 80km’s. de distancia onde lhe colocaram uma cinta ortopédica, que teve de comprar, sem mais qualquer apoio hospitalar, nem raio-x nem nada.

    Diagnóstico: quebra da clavícula direita, pelo que durante o próximo mês seria impossível pedalar.

    Enquanto a bicicleta era “recuperada” a expensas próprias, o percurso
    até Varanasi foi feito de braço ao peito e recorrendo a autocarro e comboio.

    Voltou a pedalar de Varanasi a Calcuta ponto de partida para Kuala
    Lumpur e Malaca.

    Tornou-se impossível continuar a viagem com aquela bicicleta que, apesar de
    rodas novas tinha defeitos estruturais.

    Em Malaca “despachou” a bicicleta para a China e comprou a sua segunda
    bicicleta com a qual iria terminar esta sua aventura.

    Na ilha de Sumatra, na Indonésia, debaixo de um calor sufocante, ficou sem comida que repusesse as energias necessárias, e foi uma das vezes em que deu por si a pensar…” o que ando aqui a fazer??? “

    Saiu dessa ilha em direcção a Singapura e iniciou assim o percurso no sudoeste asiático subindo de Singapura para Phuket, e daí até Mandalay.

    China

    Cruzou as desoladas planícies do Cambodja e o fantástico Vietname desde o seu
    topo sul até à fronteira com a Rep. Popular da China.

    Após algum tempo em Kunming (China) e devido a falta de renovação do visto Chinês, rumou à Coreia do Sul onde obteve um passaporte temporário.

    Japão

    Cruzou o país de norte a sul e entrou no Império do Sol Nascente em Fukuoka.
    Durante 3 meses percorreu as ilhas de Kiushu, Tanegashima (onde chegaram os portugueses ao Japão), Toskushima e a grande ilha de Honsu.

    Por várias vezes foi-lhe oferecida comida por simpáticos japoneses e em Nagasaki, Kyoto e Tókio encontrou portugueses que lhe proporcionam um
    pouco da distante gastronomia lusa.

    Austrália

    Quando o inverno chegou trazendo com ele o frio extremo, voou para Perth na Austrália ocidental, de onde planeou cruzar o continente australiano até Brisbane, tarefa que foi interrompida por ingestão de águas contaminadas, e que o trouxe de emergência para o Hospital das Forças Armadas em Portugal onde chegou já no limite das suas forças.

    Após um período de internamento, não desistiu, e quando recuperou, viajou novamente para Perth e daí dar continuidade à sua viagem.

    Esta segunda tentativa só o leva cerca de 200 km’s. mais à frente de onde
    tinha sido socorrido por Nuno Calado, um português fantástico que o voltou a recuperar tal como da primeira vez e o levou para a cidade.

    Como estava difícil na Austrália, decidiu-se por outras paragens: Bali e mais tarde a Malásia e Tailândia.

    Em Bali viu-se retido pela repentina erupção do vulcão Agung, chegou a
    Kuala Lumpur e pedalou rumo a norte, numa tentativa de recuperar a forma perdida aquando do seu internamento.

    Devagar foi recuperando e subindo a península malaia até Bangkok, sempre fugindo (ou tentando fugir) aos infernos turísticos, o que o levou a encontrar paraísos ainda a salvo dessas enchentes de pessoas.

    Regressou novamente à Indonésia para visitar as ilhas onde os portugueses tinham deixado história, Ambon, Ternate, Tidore, Sulawezi.

    Timor, a ilha dividida entre a Indonénia e Timor Leste.

    Entrou em Timor Leste por terra, na fronteira de Kefamenanu e seguiu até Pante Macassar, a capital do enclave de Oecussi onde foi recebido pelo Comandante da Policia local, que o alojou por quase 1 semana e encontrou uma comunidade portuguesa fantástica.

    De Oecussi para Dili a viagem fez-se a bordo do Ferry diário que faz a ligação entre os dois territórios timorenses.

    Dili é uma enorme cidade, o português é falado com alguma assiduidade
    e consegue-se ter acesso a supermercados com produtos portugueses e restaurantes com comida portuguesa a preços interessantes (uma feijoada para 2 custa cerca de 4 US$ por exemplo).

    São os preços dos serviços que se tornam exorbitantes (aluguer de uma scooter US$25/dia enquanto que na vizinha Bali é US$3) e o alojamento sem qualidade é extremamente caro.

    Neste campo Timor Leste foi uma desilusão, especialmente depois de ter
    percorrido muitos dos paraísos turísticos asiáticos.

    Saído de Timor Leste o destino seguinte seria novamente a Austrália onde chegou já for a da “janela” de tempo que necessitava para atravessar o Canadá
    de Vancouver até Boston nos EUA.

    Problemas de saúde de familiares próximos fizeram com que regressasse novamente a Portugal, mais cedo do que o esperado.

    Pela frente alguns projectos:

    Um livro onde descreve as suas aventuras diárias e uma segunda Volta
    ao Mundo em Bicicleta, em sentido contrário e por outras paragens.

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    Fotografia: Hernâni Cardoso

    Texto: Hernâni Cardoso

    Edição: Luís Beltrão

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    5 comments on “Volta ao mundo em bicicleta por um português”

    1. Rute diz:

      Épico! Absolutamente fenomenal!!

    2. Estêvão Jesus diz:

      Brutal, grande homem, gostaria de ter a sua coragem!

    3. Tania diz:

      Grande experiência e quanta riqueza cultural deste universo…parabéns

    4. Jorge M C Gambutas diz:

      Não é para todos… Parabéns.

    5. Benjamim Ruivo diz:

      Fantástico!

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